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Encontro de Estudantes de Arquitectura Paisagista debatem Paisagem e Política Pública

A Universidade de Évora (UÉ) acolheu de 03 a 05 de maio o V Encontro de Estudantes de Arquitectura Paisagista (ENEAP), reunindo estudantes das Universidades de Évora, do Algarve, de Lisboa, do Porto e de Trás-os-Montes e Alto Douro, numa edição dedicada a um tema da maior relevância “Paisagem e Política Pública”.

Desde a primeira edição que o ENEAP tem o objetivo “da transmissão do conhecimento dos seniores aos mais novos, e a promoção de trabalho de equipa entre os futuros profissionais de diferentes escolas”, sublinha a organização deste encontro onde os estudantes procuram “encontrar respostas e contribuir para uma política pública de paisagem”. “Queremos que este encontro seja o ponto de partida para um trabalho em rede entre diferentes profissionais e academias” sublinharam ainda, conscientes que “persistem as perplexidades que subjazem a este encontro” nomeadamente “o que compete hoje à arquitectura paisagista e de que forma a sua actuação pode ser basilar de uma política pública de paisagem” bem como “qual é o legado da Arquitectura Paisagista na Universidade de Évora e de que forma se garante a sua continuidade”.

Mariana Machado, a colaborar com o Núcleo de Alunos de Arquitectura Paisagista da Universidade de Évora, investigadora no CHAIA a realizar doutoramento em Artes e Técnicas da Paisagem, recorda que este Encontro tem vindo a crescer em número de participantes, mas o mais importante, na sua opinião é ter conseguido “atrair alunos e professores de arquitetura paisagista e alcançado diversas personalidades a desenvolver investigação nesta área", salientando que há “imenso trabalho nesta área”, mas falta “definir melhor a política pública e trabalhar mais com colegas de outras áreas cientificas”.

Presente no encontro, Aurora Carapinha, Professora do Departamento de Paisagem, Ambiente e Ordenamento da UÉ, recordou que foram os alunos desta Universidade a organizar o primeiro encontro de alunos de arquitetura paisagista em Portugal, "faz agora trinta anos", sublinha ao recordar também, que o curso de Arquitetura Paisagista, foi criando num “acto de rebeldia” do Arq. Ribeiro Teles, tornando-o um curso pioneiro em Portugal. Sobre a profissão, a professora da UÉ, considera que os Arquitetos Paisagistas são uma espécie de “grilo do Pinóquio” que alertam para determinadas políticas e evitar “certos erros que continuam a ser cometidos no nosso país”, dando como exemplo o olival intensivo e super-intensivo no Alentejo.

No que respeita à decisão da Universidade de Évora não abrir vagas do curso para o próximo ano letivo, Aurora Carapinha, considera ser “um momento difícil” mas acredita que tal situação seja revertida e recorda que foi acreditado pela A3ES “em todos os níveis e sem qualquer alteração”. Para a professora doutorada em Artes e Técnicas da Paisagem pela Universidade de Évora em 1995, “há toda uma história que não devemos perder, porque foi também a UÉ, a primeira Universidade em Portugal a ter um Departamento de Ecologia, “criando os fundamentos para uma política de paisagem”.

Ana Costa Freitas, Reitora da UÉ, a este propósito, reforçou que a Universidade deverá “refletir” sobre a continuidade deste curso, reiterando que o Departamento de Paisagem, Ambiente e Ordenamento do território, “continua a ter qualidade, experiência e o conhecimento profundo, que conduzirá certamente à inversão deste ciclo”, esperando deste uma “resposta no sentido de uma planificação e estratégia capaz de reerguer este Curso Histórico da Universidade, talhando-o para o futuro ao nível do ensino, investigação e da transferência de conhecimento”.

O conceito de paisagem, sobretudo do ponto de vista da História de Arte é “a representação de uma perspetiva sobre uma determinada realidade”, anota Paulo Rodrigues, diretor do CHAIA, conceito que ficou mais abrangente ao desenvolver investigação com investigadores na área da arquitetura paisagista, para “um sistema dinâmico, que cruza a dimensão biofísica com a dimensão cultural", até porque, "quando falamos em sustentabilidade ambiental estamos a falar no aproveitamento equilibrado de recursos e, de facto a paisagem é fundamental para esse equilíbrio” sublinha assim o investigador da UÉ.

Paisagem e Património têm deste ponto de vista conceitos próximos, o que levou o CHAIA a organizar em 2018, um curso livre sobre Paisagem e Património, desenvolvendo conceitos de património e paisagem, explorando a dimensão da Paisagem enquanto valor identitário e apresentando estratégias de caracterização, inventariação de gestão e recuperação do património paisagístico.

Paulo Rodrigues explica que, a nível geral, o problema em Portugal é ter continuado "fechados nas áreas de especialização”, havendo necessidade das Universidades “começarem a apostar muito mais na interdisciplinaridade, multidisciplinaridade”, até porque atualmente “os problemas mais complexos encontra-se nas denominadas «zonas de fronteira”, que nos obrigam a uma conjugação de saberes”. Ainda assim o professor da UÉ considera que a especialização é importante para determinado nível e em determinadas situações, mas cada vez mais, “temos que conseguir trabalhar nos dois níveis e oferecer uma formação mais abrangente, sem perder de vista, a especialização”. Para Paulo Rodrigues,o Processo de Bolonha tinha essa finalidade, “em Portugal não entendemos os benefícios deste processo”, esperando no futuro esta alteração a nível da formação e ensino universitário.

Publicado em 08.05.2019