Cátedra Rui Nabeiro para a biodiversidade

Canal: "Ciência e Tecnologia"


Miguel Bastos Araújo
Miguel Bastos Araújo
Foto: s.r.

Cátedra Rui Nabeiro para a biodiversidade

O Doutor Miguel Bastos Araújo é o titular da Cátedra Rui Nabeiro para a biodiversidade, a primeira financiada por uma empresa em Portugal. Eleito por um júri, através de um concurso internacional, o investigador apresentou o melhor projecto para desenvolver na universidade.


É um dos nomes mais prestigiados na área da Ecologia e do Ambiente e pretende colocar a Universidade de Évora no "mapa" da Ecologia, Evolução e da Biologia, não só em Portugal mas também lá fora. Miguel Bastos Araújo quer criar uma linha de investigação sólida na academia e deu ao UELINE uma entrevista onde expõe as suas principais ideias e projectos para os próximos cinco anos da Cátedra Rui Nabeiro.

Jornal On-line da Universidade de Évora (UELINE) - A Cátedra Rui Nabeiro é a primeira Cátedra financiada com fundos privados em Portugal?

Doutor Miguel Araújo (MA) - Sim e considero ser uma grande honra mas também uma grande responsabilidade ser o primeiro investigador a gerir uma Cátedra desta natureza em Portugal. O futuro das Cátedras privadas no nosso País passará pelo êxito da Cátedra Rui Nabeiro e as restantes universidades estarão certamente atentas ao modelo que se desenvolver em Évora. Se me permitir, aproveito a pergunta para louvar o exemplo, pioneiro em Portugal, que o comendador Rui Nabeiro e a empresa Delta Cafés têm vindo a protagonizar em matéria de apoio a actividades educativas, de defesa do ambiente e de promoção do desenvolvimento sustentável no Alentejo e no País. Esta é uma prática com tradição noutros países, especialmente nos de matriz anglo-saxónica, mas que em Portugal começa só agora a dar os seus primeiros passos.

UELINE - O que são exactamente as Cátedras?

MA - As Cátedras são unidades orgânicas que visam o aprofundamento científico em determinadas área do conhecimento. Elas distinguem-se de outras unidades orgânicas como sejam, por exemplo, os centros de investigação, na medida em que são centradas na figura de um professor, ou investigador, de elevado mérito, que possui total liberdade de Cátedra, ou seja, liberdade de estudar, investigar, difundir, publicar, sobre os temas que considerar serem mais oportunos. A esta liberdade de cátedra associa-se uma grande autonomia de gestão que advém, naturalmente, do seu carácter uninominal. Na prática, as Cátedras assumem perfis muito diferentes umas das outras. O que é importante é que os detentores das Cátedras se saibam adaptar às circunstâncias específicas do seu meio de modo a permitir que a sua actividade seja, ela própria, motor de mudança.

UELINE - Quais serão as actividades da Cátedra Rui Nabeiro?

MA - As actividades da Cátedra Rui Nabeiro assentarão em três pilares: promoção da investigação em biodiversidade e alterações globais, formação avançada (terceiro ciclo) em ecologia, ambiente e evolução e divulgação, junto dos estudantes mas também do grande público, de temas relacionados com o objecto da Cátedra. A minha meta é que a Cátedra contribua para que a Universidade de Évora se torne uma referência nacional para a formação avançada nas áreas descritas e seja encarada, por estudantes e investigadores, como um local de referência para o intercâmbio de conhecimento e desenvolvimento da investigação científica.

UELINE - Considera ser esta uma meta realista?

MA - É uma meta ambiciosa mas eu sou um optimista por natureza e acredito na capacidade dos indivíduos para alterar o curso da história. Pequenos gestos, pequenas decisões, podem ter um alcance inesperado...

UELINE - Como pretende alcançar os objectivos de excelência que se propõe alcançar?

MA - Ainda é cedo para avançar com detalhes mas posso adiantar-lhe que uma das primeiras iniciativas será o estabelecimento de parcerias estratégicas com outras instituições nacionais e internacionais com vista à integração da Universidade de Évora em redes de investigação e formação avançada de excelência. Estas parcerias são importantes pois a massa crítica disponível na Universidade de Évora é insuficiente para fazer face aos desafios que se nos colocam hoje. Outra medida crucial é atrair jovens investigadores da Diáspora científica Portuguesa. Portugal deve ser um dos Países Europeus com maior fuga de cérebros entre os seus jovens investigadores e não há aposta mais importante que tentar atrair estes talentos de volta ao seu País - e isto é muito importante - antes que consolidem a sua vida profissional e emocional no estrangeiro.

UELINE - De que forma se integrará a Cátedra na vida académica da Universidade?

MA - O meu desejo é contribuir para a criação e reforço de programas de investigação e formação avançada que tenham condições para sobreviver à Cátedra. Para que isso aconteça é importante que as actividades no âmbito da Cátedra recebam bom acolhimento e se integrem na actividade corrente da Universidade. Naturalmente, a Cátedra não poderá impor a sua colaboração a pessoas e unidades orgânicas mas por parte da Cátedra existe toda a disponibilidade para colaborar com os que se revêem nos seus objectivos.

UELINE - E pensa ser possível obter este apoio da academia?

MA - Prefiro não fazer prognósticos sobre a matéria mas não creio que hajam muitas alternativas para ultrapassar a actual crise do sector universitário que não passem pela cooperação entre as partes interessadas. Um exemplo de como a falta de cooperação pode ter custos elevados aconteceu há uns anos quando os dois centros de ecologia da Universidade de Évora foram avaliados. Por esta ocasião foi feita uma recomendação por parte do painel de avaliação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) para fusão destes centros. A racionalidade inerente a esta recomendação era inabalável. A massa crítica disponível era demasiado reduzida para que a universidade tivesse duas unidades de investigação financiadas pela FCT em áreas coincidentes e havia a expectativa que a fusão de dois centros "fair" desse, eventualmente, origem a um centro "good". Passaram os anos e o que aconteceu? Continuam a existir os mesmos dois centros que, entretanto, deixaram de ser avaliados e financiados pela FCT. Simultaneamente, foram criados e mantidos inúmeros laboratórios (mais de 10) na área das ciêcias da natureza. Nenhuma destas estruturas é avaliada pela FCT e algumas delas estão moribundas e só existem no papel, ou melhor, na página web da universidade. Outros laboratórios, constituem excelentes exemplos de dinamismo e mérito individual dos seus líderes. Os docentes que fazem investigação na Universidade de Évora fazem-na de forma isolada, em centros de investigação de outras universidades, ou em centros de investigação da Universidade de Évora que só marginalmente enquadram actividades de ecologia, ambiente e evolução (por exemplo, em centros de ciências agrárias). Uma das consequências desta situação é que hoje seria difícil aprovar um programa de doutoramento no âmbito da área departamental de ciências da natureza e do ambiente pois as regras apontam, claramente, para a necessidade de uma massa crítica a desenvolver investigação em centros de investigação bem classificados pela FCT, nas áreas temáticas dos doutoramentos propostos. A situação é grave já que sem estudantes de doutoramento dificilmente se faz investigação na fronteira do conhecimento e sem investigação não se conseguem outorgar doutoramentos dignos desse nome. Para romper este ciclo vicioso é necessária uma nova postura de cooperação assente no principio de que o êxito de uns também será o êxito de outros.

UELINE - O Prof. Miguel Araújo é o investigador Português que mais citado foi, na última década, na área da ecologia e do ambiente e é o segundo classificado em Espanha. Qual é o segredo deste êxito?

MA - Em primeiro lugar muito trabalho, de forma constante e com muito esforço pessoal. É bom não alimentar ilusões. Para obter 5% de inspiração é necessário gastar 95% de transpiração e tal só se obtém com um nível quase obsessivo de dedicação à ciência. Em segundo lugar, uma gestão criteriosa do tempo. O bem mais escasso de qualquer investigador é o tempo de qualidade, sem excessivas distracções e interrupções e a má gestão deste bem escasso é garantia de fracasso e frustração. Em terceiro lugar, uma visão estratégica sobre quais as perguntas mais interessantes e importantes em cada momento. Tal não garante a qualidade da ciência produzida mas contribui para a visibilidade da mesma. Em quarto lugar a integração em redes internacionais interdisciplinares. Muito antes da globalização económica já existia uma globalização da ciência e hoje, mais do que nunca, é impensável liderar a fronteira do conhecimento trabalhando de forma isolada. É necessário viajar, interagir com colegas e, mais importante, estabelecer parcerias interdisciplinares com investigadores de elevado mérito pois as grandes novidades, as grandes descobertas, estão na intersecção entre as disciplinas clássicas. Finalmente, é importante ter beneficiado de uma formação sólida em ciência. A curiosidade, o rigor, o método e a capacidade de transformar estes atributos numa investigação publicável e de interesse geral aprende-se e treina-se no dia a dia. Alguns poderão aprender a ser excelentes investigadores de forma autodidacta mas a grande maioria dos investigadores necessitou de treino e de um enquadramento estimulante para ousar cruzar as fronteiras do conhecimento.

UELINE - Pretende investir na Cátedra em regime de exclusividade?

MA - As Cátedras convidadas são geralmente ocupadas por líderes científicos, de nível internacional, com posições consolidadas noutras instituições. Estas Cátedras diferem das Cátedras permanentes que são ocupadas por investigadores que trasladam a totalidade das suas equipas de investigação para a instituição que oferece a Cátedra. Portanto, seria pouco razoável que um investigador com uma posição consolidada, numa instituição de excelência científica, como é o CSIC (Consejo Superior de Investigaciones Científicas), se desvinculasse da mesma para ocupar, em regime de exclusividade, uma posição cujo compromisso é de cinco anos. Dadas as circunstâncias, o que pretendo é estabelecer sinergias positivas entre a minha equipa actual, as redes internacionais nas quais esta se insere e o programa da Cátedra. Em particular, tentarei explorar as vantagens comparativas que a Universidade de Évora oferece, designadamente no que respeita a capacidade de instalação de laboratórios, para investigar os mecanismos climáticos que afectam o sistema biológico. Este núcleo de investigação experimental radicado em Évora será integrado num programa mais vasto de investigação que inclui elementos da minha equipa dispersos por vários países. A componente de formação avançada, que só é possível nas universidades, promete ser outra valência complementar muito importante às minhas actividades actuais.