Happy Birthday, Mr. Poe!

Canal: "Cultura e Lazer"


Edgar Alan Poe
Edgar Alan Poe
Foto: Wikimedia Commons

Happy Birthday, Mr. Poe!

O início desta missiva pode-lhe parecer estranho, a si que nunca se identificou realmente com a palavra "happy" e que nem tão pouco alguma vez deve ter acreditado num nascimento feliz, pois não foi decerto nada boa a experiência de se ver privado dos seus pais, ambos actores, ainda na sua infância, tendo sido adoptado por uma família abastada de Richmond, na qual nunca se integrou totalmente, mas donde lhe veio o seu apelido Allan, que muitos escrevem Allen, à semelhança do seu conterrâneo Woody Allen, que nunca chegou a conhecer, mas cujo humor negro muito lhe deve, como pode ver pela seguinte afirmação do conhecido realizador: "I am not afraid of death, I just don't want to be there when it happens".


Falar da morte também nunca o assustou, pela sua profunda consciência acerca da ironia da nossa existência determinada pelo facto trágico de que no início da vida está já contido o germe do seu próprio fim. Será bom lembrar as suas assombradas palavras no seu profético ensaio sobre a origem do Universo, a que chamou Eureka: In the Original Unity of the First Thing lies the Secondary Cause of All Things, with the Germ of their Inevitable Annihilation. A partir daqui, acredito ter-lhe sido fácil construir a sua cosmologia moral segundo a qual a dor é a base da vida e a morte o único alívio da condição grotesca da perversidade humana. Compreendo que esta ideia lhe tenha possuído de tal forma o espírito que nunca mais tivesse conseguido dormir descansado, tendo-se recusado terminantemente a aceitar que confundissem o seu terror com qualquer outro que não fosse o da própria alma, a que, na sua língua materna, denominou "terror of the soul". Com uma temática destas a percorrer toda a sua obra, acredito que não goste de efemérides, comemorações, centenários ou de bicentenários que um pouco por todo o mundo decorrem este ano, para lhe prestarem a homenagem que deveria ter recebido ainda em vida, mas que nunca poderia ter acontecido, pois como bem sabemos nunca ninguém se preocupou muito com isso, a não ser o seu incondicional admirador Baudelaire, que com os seus amigos simbolistas tudo fez para o celebrizar numa Europa sedenta de modernidade e que muito deveu ao seu conceito estético de "beleza horrenda", ainda ligado a um certo romantismo negro que tão profundamente marcou também a obra dos seus compatriotas Hawthorne e Melville. De facto, ambos sabemos que muitos leitores do seu tempo temiam confrontar-se com as suas inquietações que muito abalaram a crença no American Dream, tendo produzido o efeito contrário de chamarem a atenção para algo muito actual e persistente que dá pelo nome de American Nightmare.

Felicito-o pela sua grande coragem de, em pleno séc. XIX, ter decidido representar os aspectos mais terríveis da nossa existência, facto que sempre o impediu de promover os falsos valores da moral dominante da sociedade americana. Não que os seus contos sejam desprovidos de sentido moral, pois este sempre foi para si importantíssimo. Lembro-me bem de ter defendido, no seu ensaio "The Poetic Principle", a ideia de a mente humana estar dividida em três partes: Intelecto, Gosto e Sentido Moral. Assim, toda e qualquer actividade intelectual e artística nunca existiria desligada de um certo sentido ético. Como professora numa Universidade, num tempo tão isento de valores, agradeço-lhe sobretudo esta atenção a algo tão essencial. Que todo o acto de pensamento ou de criação possa conter em si o germe de uma destruição inevitável, alerta-nos para a condição contraditória dos nossos comportamentos, muitas vezes determinados por impulsos irracionais que nos impelem a praticar certas acções pelo simples facto de sabermos que não as devemos praticar. Desta sua atenção à natureza inata da perversidade humana nasceram vários dos seus contos, entre os quais "The Imp of Perverse", em que a personagem principal, vítima desse incontrolável impulso perverso, não resiste a denunciar-se a si própria por um crime cometido. Sei como se deve ter sentido aliviado por ter contado esta história, um verdadeiro tratado sobre o terror da culpa auto-destrutiva, pois toda a sua vida foi influenciada por esta irresistível incapacidade de lutar contra os seus próprios impulsos negativos que fatalmente o levaram ao excesso de consumo de álcool, esse perverso vício demoníaco que lhe causou frequentes crises de "delirium tremens" responsáveis pela sua morte tão antecipada e misteriosa.

Como projectou nas suas personagens os seus tormentos pessoais, objectivando-os e transformando-os em equivalentes objectivos da sua tragédia íntima, nunca deixou de representar na sua ficção os excessos de um certo Idealismo Negro Romântico que conduz o artista à loucura da arte. Consciente do lado negro de todo o processo criativo, é natural que tenha levado as suas personagens a cometer actos estéticos extremos, como aconteceu com Roderick Usher, esse carismático psico-artista capaz de assassinar a irmã, Madeleine, para produzir arte. Sempre apreciei a sua grande sinceridade criativa por ter assumido o lado perverso do artista e da arte, demonstrando profunda consciência da sua natureza paradoxal. Em "The Oval Portrait", chegou mesmo a confrontar-se com essa necessidade de o artista destruir para criar, não deixando de nos evidenciar que muitos impulsos criativos são simultaneamente destrutivos. Só por esta sua autenticidade, lhe desculpo o facto de ter considerado a morte de uma mulher jovem e bela como o tópico mais poético do mundo. Como deve compreender, dizer que uma mulher bela é uma mulher morta, não será para nenhuma de nós um elogio muito animador. Pressinto, pois, que Mr. Poe foi também vitima dos seus próprios ideais estéticos que tanto ironizou, mas aos quais nunca conseguiu resistir, não tendo estes conseguido resolver a sua cisão psíquica, embora tentassem controlá-la. Permanentemente dividido entre a emoção e o intelecto, procurando conciliar, através da escrita, estes duas polaridades, tal como o fez, em poesia, o nosso Fernando Pessoa, os seus terrores teriam forçosamente de se agravar. Contudo, se tal não tivesse acontecido, a sua obra não seria ainda hoje tão actual, pois como muito bem observou o seu herdeiro Stephen King: "o horror para um leitor moderno está no horror universal pela degenerescência mental". Que a sua mente descanse em paz, agora que alguns de nós começamos finalmente a compreendê-lo melhor.



Maria Antónia Lima | Departamento de Linguística e Literaturas

Agenda

10
Fev

Seminário: FIRST MINI SEISMOLOGY SEMINAR

14.30 | Anfiteatro 1 do Colégio Luís António Verney da UE

11
Fev

DOUTORAMENTO "HONORIS CAUSA" DE MALANGATANA VALENTE NGWENYA

11:00 | Sala dos Actos da Universidade de Évora (Colégio do Espírito Santo da UE)

12
Fev
26
Fev

Prova de Doutoramento: HISTÓRIA DA IMPRENSA PERIÓDICA DESPORTIVA PORTUGUESA (1875-2000)

10:00 | Sala de Actos da Universidade de Évora (Colégio do Espírito Santo da UE)

 
 

Seminário: OS CRITÉRIOS ADOPTADOS PELAS SOCIEDADES DE CAPITAL DE RISCO PORTUGUESAS NO PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DE INVESTIMENTO

20 de Abril de 2010