23 Novembro 2017
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25 anos de Património da Humanidade
Évora 1986-2011
Desde o passado 25 de Novembro entrámos no primeiro quarto de século sobre a classificação de Évora, pela UNESCO, como Património da Humanidade. A reflexão que se impõe é a de saber se nestes anos que decorreram, Évora se comportou de molde a merecer tal distinção e a confirmá-la. Sem grandes delongas, podemos dizer que sim, sem margem para dúvidas. E mais; o quarto de século não parece fazer muito sentido, pois se recuarmos no tempo, Évora aparece-nos continuadamente como um facto urbano singular, habitada por gentes que quiseram e souberam valorizar os seus patrimónios, do que resultou um Património de todos, da Humanidade.
De entre a gente eborense, nascida e/ou vivida, alguns souberam em momentos registados, sintetizar e assinalar por obras várias, por vezes até engrandecendo e imortalizando, os valores da cidade. Felizmente que foram muitos e de variadas artes os que ao longo de vinte séculos ficaram registados e referenciados, nos arquivos, nos livros, nos edifícios, nas ruas ou tão só nas pedras e na toponímia, de tal modo rica e instrutiva, que importa mantê-la e explicá-la.

Évora merece, decerto, não uma mas muitas visitas, sequência válida para a maioria dos seus fiéis visitantes. Mas Évora merece sobretudo uma viagem, em que se descobre sempre algo de novo, nas sucessivas jornadas. Deambular pelas ruas e ruelas, largos e praças desta cidade é como ver um filme em que em cada visionamento descobrimos novos sentidos e aprofundamos, assim, a identificação.

É também importante aprender Évora para lá da Cidade Património da Humanidade, a que resulta das experiências do passado, mas também a que se alcança para lá das muralhas, na cidade que continua a crescer e a trabalhar com os olhos postos no futuro. Descobrir e viver a poética dos bairros dos últimos cem anos que continuam a crescer e a ser melhorados; descortinar a beleza dos espaços de produção industrial onde também encontramos as marcas de diferentes períodos e indícios dos tempos que aí vêm. No fundo, saber adequar Évora aos versos que Pessoa endereçou a Cesário, tendo Lisboa como pano de fundo: "Há quem olhe para uma factura e não sinta isto. Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentes. Eu é até às lágrimas que o sinto humanissimamente. Venham dizer-me que não há poesia no comércio, nos escritórios! Ora ela entra por todas os poros..." (Álvaro Campos).

E que saudades eu tenho de ver os comboios a atravessar Évora!...
Jorge Gaspar | Doutor Honoris Causa da Universidade de Évora
Publicado em 07.12.2010