29 Junho 2017
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Nos 25 Anos de Évora, Cidade Património Mundial
É da natureza das coisas humanas serem transitórias. Da sua existência acabará por só restar a memória, mas até essa capacidade de prolongar a existência das coisas para além da sua presença ou expressão físicas é limitada e acabará por se esgotar. Daí se verificar, em diferentes formas de civilização humana, a manifestação do que poderemos designar como um impulso mnemónico, a necessidade imperativa de desenvolver estratégias que permitam, com finalidades diversas (políticas, sociais, religiosas, estéticas, etc.), proteger e conservar a vida de realidades materiais (objectos, edifícios, espaços, etc.) particularmente significativas, pelo seu valor intrínseco – como as obras de arte – ou pelo seu potencial evocativo de realidades não materiais, como os acontecimentos passados – como os vestígios arqueológicos.

Na Europa, por exemplo, entre os séculos XVI e XX, a criação e a atribuição das categorias de “antiguidade”, no sentido de objecto antigo, e “monumento”, quer na variante do “monumento comemorativo”, quer na do “monumento histórico”, visou, precisamente, proteger, classificando-os, os objectos e as edificações entendidos como portadores de memórias históricas. A partir do segundo quartel do século XX, a uma escala mais global, surgiu o conceito de “património”, de maior abrangência, aglutinador, inclusive, de práticas culturais sem dimensão material e de bens naturais.

A relevância civilizacional do “património” está bem patente na criação de mecanismos internacionais para a sua protecção, tornados urgentes sobretudo pela destruição provocada pelas duas guerras mundiais. Neste contexto, em 1965, no seio da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), fundada precisamente em 1946, e na sequência da Carta de Veneza de 1964, Carta Internacional para a Conservação e Restauro dos Monumentos e Sítios, foi criado o Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS), responsável pela Convenção do Património Mundial de 1972 e pela lista dos bens culturais assim classificados, ou seja pela sua avaliação e classificação.

A 25 de Novembro de 1986, a cidade de Évora passou a integrar a Lista do Património Mundial da UNESCO. No caso particular de Évora, para além do evidente reconhecimento patrimonial, a classificação de Património Mundial também significou a consagração internacional da consciência que os eborenses tinham do valor histórico-cultural da sua cidade, formada desde pelo menos o século XVI, consolidada em 1919, com a criação do Grupo Pró-Èvora, a Associação de Defesa do Património da Cidade de Évora, por um grupo de destacados cidadãos, e inteiramente assumida no processo de candidatura.

A integração de Évora na Lista do Património Mundial da UNESCO ficou a dever-se ao cumprimento pela cidade de dois dos critérios de classificação. Considerou-se que Évora testemunhava um considerável intercâmbio de influências durante um dado período e numa determinada área cultural do mundo, o desenvolvimento da arquitectura e da tecnologia, das artes monumentais, da planificação de cidades e da criação de paisagens. Também é um testemunho extraordinário do tipo de edifício, dos conjuntos arquitectónicos ou tecnológicos e das paisagens que ilustrem as diferentes fases da história humana. O comité de avaliação entendeu que Évora merecia ser classificada por ser, depois da destruição de Lisboa pelo Terramoto de 1755, o melhor exemplo de uma cidade do período de apogeu de Portugal, e por a sua arquitectura mostrar a influência exercida pelos portugueses na arquitectura do Brasil, em sítios como São Salvador da Bahia. Destaca ainda a sua antiguidade, que remonta ao período romano, e os principais monumentos dos seus mais marcantes períodos históricos: Templo Romano, Catedral, Igreja de S. Francisco, Pavilhão do Palácio de D. Manuel, Aqueduto, Colégio do Espírito Santo, etc.

Comemorar a classificação de Évora como Património Mundial em 2011 é reafirmar o valor da cidade como bem excepcional em relação ao qual os eborenses, os portugueses e a comunidade internacional tem responsabilidades acrescidas na valorização e conservação da sua integridade, na execução dos procedimentos de estudo, inventariação, regulação e intervenção que essa valorização e conservação implicam. Mas deve também ser uma oportunidade de reflectir sobre a aplicação deste estatuto a um sistema vivo tão complexo e com tantas variáveis como é a cidade contemporânea. Ou seja, reflectir como conciliar os valores culturais e memoriais que atribuímos ao centro histórico da cidade de Évora, tão importantes para nós que os consideramos merecedores de uma protecção especial, com o factor desse centro histórico ser uma espacialidade real que é e se deve manter viva e vivida. Um espaço que não pode ser intangível, mas que deve ser intervencionado com a compreensão e o respeito pelas memórias e pela identidade do lugar e das pessoas que o habitam. Acompanhando Françoise Choay, acreditamos que a possibilidade deste compromisso passa por uma educação e uma formação que promovam uma relação ética com os cidadãos, com os espaços e com as heranças edificadas, e também por uma consciência colectiva de que ao intervirmos, estamos a gerar o património do futuro.

Paulo Simões Rodrigues | Departamento História / CHAIA / HERCULES
Publicado em 28.11.2011