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Investigador da Cátedra Rui Nabeiro publica na revista Science
Investigador da Cátedra Rui Nabeiro publica na revista Science
Investigador da Cátedra Rui Nabeiro publica na revista Science

O investigador da Cátedra “Rui Nabeiro” em Biodiversidade, da Universidade de Évora François Guilhaumon participou no estudo, que pode ajudar a quantificar a biodiversidade global. O estudo permitiu realizar um censo exaustivo de artrópodes, realizado no Panamá, mediante o qual se determinou que existem mais de 6.000 espécies desses animais em apenas 1 hectare de floresta e dele resultou o artigo “Arthropod Diversity in a Tropical Forest” publicado em dezembro na revista Science.

Comunicado de Imprensa da Cátedra Rui Nabeiro:

«Mais insectos do que tudo

 Conduzida pelo entomólogo Yves Basset, do Smithsonian Tropical Research Institute, a equipa do projecto “IBISCA-Panamá” realizou um longo trabalho de amostragem, triagem, identificação e estimativa do número de espécies de artrópodes viventes em uma única floresta. Um grande esforço de colaboração, envolvendo 102 pesquisadores de 21 países foi necessário para colectar e identificar artrópodes de todas as partes da floresta tropical. A investigação durou oito anos, dois deles dedicados à captura de exemplares, onde 70 cientistas rastrearam exaustivamente meio hectare de floresta, na reserva de San Lorenzo, para contar todos os artrópodes presentes: insectos, aracnídeos e crustáceos. As amostragens foram feitas com recurso a guindastes, plataformas, balões insufláveis e escalada, para o dossel da floresta, e envolveu também muito trabalho no chão para peneirar o solo, criar armadilhas e iscos para os artrópodes. “A maior dificuldade da amostragem é por ser num ambiente selvagem muito complexo, a parte superior da floresta é ainda mais inacessível e estes animais são muito pequenos”, assinalou Andrew Sugden, director adjunto da revista Science, onde o estudo foi publicado.

Foram recolhidos 129.494 artrópodes de 6.144 espécies diferentes. Com estes dados, os cientistas conseguem fazer estimativas da biodiversidade da região, uma vez que por cada espécie de planta vascular, ave e mamífero deve haver 20, 83 e 312 espécies de artrópodes, respectivamente. De acordo com a Science estes cálculos podem ser muito úteis para as estratégias de conservação. Por exemplo, o modelo de proporção entre artrópodes e plantas é muito útil para calcular a diversidade, uma vez que é muito mais fácil contar árvores do que esses pequenos animais, afirma Yves Basset. Assim, baseando-se no número de espécies de árvores existentes, os investigadores do “IBISCA-Panamá” preveem a existência de cerca de seis milhões de artrópodes no mundo. Este número é 30 milhões mais baixo do que o previsto por outro cientista, o entomólogo Terry Erwin. Erwin não está de acordo com a previsão do grupo liderado por Basset e argumenta que os dados do Panamá não podem ser extrapolados ao resto do mundo para fazer estimativas globais.

Números a parte, fica claro é que ao degradar-se a floresta tropical, perde-se uma enorme quantidade de biodiversidade. “Se estamos interessados em conservar a diversidade da vida na Terra, devemos começar a pensar sobre a melhor forma de conservar os artrópodes”, disse Tomas Roslin, da Universidade de Helsinque, e um dos 35 co-autores do artigo.

“O que nos surpreendeu mais foi que mais da metade de todas as espécies podem ser encontradas em um único hectare da floresta”, diz Basset. “Esta é uma boa notícia, porque significa que, para determinar a diversidade de espécies de uma floresta tropical, não precisamos amostrar áreas gigantescas: um total de um hectare pode ser suficiente para termos uma ideia da riqueza regional de artrópodes – desde que esse total inclua parcelas espaçadas, representativas da variação existente dentro da floresta”, observa Roslin.

“Outra descoberta interessante foi que a diversidade de artrópodes, tanto herbívoros quanto não-herbívoros, pode ser prevista com precisão a partir da diversidade de plantas”, explicou Basset.

A originalidade do trabalho está, principalmente, no esforço de amostragem. De acordo com Basset, até agora as investigações centraram-se em um ou poucos tipos de artrópodes, enquanto os cientistas envolvidos neste estudo abarcaram todos os grupos. Para isso, foram aplicadas 14 técnicas complementares de captura dirigidos a grupos de espécies específicas, como escaravelhos, moscas, abelhas, formigas, ácaros ou térmitas. Como continuação do projecto, a equipa já está a trabalhar em uma nova amostragem intensiva, desta vez na Papúa-Nova Guiné.

De acordo com François Guilhaumon, investigador ligado à Cátedra “Rui Nabeiro” Biodiversidade, da Universidade de Évora, e co-autor do trabalho, os estudos de 'amostragem' são difíceis de se encontrar no meio académico, uma vez que são muitas vezes considerados básicos. “No entanto, eles permitem responder a questões muito fundamentais na base de estudos mais complexos”, explica. “A publicação de um artigo deste tipo na Science poderá fomentar o início de outros projectos semelhantes”, espera Guilhaumon. “Eles estão na base de toda a ecologia!”, desabafa.

“Embora tenhamos atribuído imensos recursos para fazer o mapeamento dos nossos genes, para resolver estruturas sub-atômicas e para procurar vida extraterrestre, temos investido muito menos em averiguar com quem partilhamos a Terra. Porque tal pesquisa deve ser executada com um orçamento tão precário me escapa”, reflecte Basset. “Acredito que chegou o momento de pensar grande também em ecologia”.»

O artigo pode ser consultado, aqui: http://www.sciencemag.org/content/338/6113/1481.abstract.

 

Publicado em 07.01.2013