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foto: João Barnabé
Arbitragem em debate na Universidade de Évora

A 6.ª edição da conferência de desporto da Associação Académica da Universidade de Évora (AAUE)  teve a arbitragem como tema. A importância da psicologia para a preparação dos árbitros, o dia-a-dia de um árbitro, a arbitragem no feminino, a metodologia do treino de um árbitro e a relação do árbitro com os treinadores foram os motes da conferência que decorreu a 12 de dezembro, no auditório da Universidade de Évora (UE).

 

João Araújo, diretor regional do Instituto Português do Desporto e Juventude, abriu a conferência referindo que “a investigação, a reflexão e o desenvolvimento do conhecimento no âmbito do desporto são fundamentais para o desenvolvimento desportivo e, nesse sentido, esta conferência é fundamental para o progresso desportivo regional.

Armando Raimundo, diretor do Proto-departamento de Desporto e Saúde da UE defendeu que “o fenómeno desportivo deve ser regrado e dentro de campo quem tem essa incumbência são os árbitros, por isso é muito interessante debater-se a problemática da arbitragem e fazer-se investigação científica com árbitros, porque são eles as peças chave para que as competições decorram dentro das normas legais e éticas.”

O diretor do Proto-departamento de Desporto e Saúde realçou também o investimento feito pela UE no desporto, com efeitos claros nos bons resultados obtidos pelos atletas eborenses nas provas da Federação Académica do Desporto Universitário (FADU).

Paulo Figueira, presidente da AAUE referiu-se ao facto de os árbitros serem sempre os mais criticados no desporto e apontou a falta de cultura desportiva da população para a culpabilização dos árbitros pelos maus resultados das equipas. O dirigente associativo afirmou também que “o desporto transmite ideais muito importantes para a sociedade, tais como o fair play, o trabalho de equipa e a cooperação.”

Lúcia Oliveira, psicóloga que desde 2009 colabora com a Comissão de Apoio Técnico da Associação de Futebol de Évora na preparação psicológica dos árbitros explicou que “o treino do árbitro não se deve cingir à componente física e técnica, mas também deve passar pela preparação ao nível mental, a fim de se otimizar as prestações dos árbitros e a forma como lidam com o stress e com a ansiedade pré e pós competitiva.” A psicóloga defende “um trabalho individual com cada árbitro para que estes possam melhorar os seus níveis de autoconfiança, capacidade de atenção e concentração, aumentar a capacidade para gerir focos de distração inesperados e para a definição dos seus objetivos de carreira.”

Olegário Benquerença, árbitro internacional português de futebol com presenças num campeonato do mundo, da europa e em meias-finais da Liga dos Campeões, falou sobre o quotidiano de um árbitro, desde os treinos ao impacto que a atividade da arbitragem tem na vida pessoal e social de um árbitro.

O árbitro FIFA explicou que “numa semana com apenas um jogo ao fim de semana, um árbitro de elite faz quatro treinos, abrangendo a recuperação do jogo com um treino de baixa intensidade, um treino de alta intensidade, um treino mais técnico e um treino de flexibilidade e velocidade a anteceder os jogos. Porém, um árbitro internacional faz por norma dois jogos por semana, com viagens pelo meio o que obriga a um reajustamento constante do programa de treinos.”

“A vida pessoal, profissional e social às vezes fica para segundo plano porque a minha grande paixão é a arbitragem e os objetivos de vida foram-se desenhando em torno do meu grande sonho, a participação num campeonato do mundo. Felizmente já atingi esse sonho, mas tracei novos objetivos, o jogo 200 na 1.ª liga de futebol e o jogo 100 como internacional. Não é fácil ter-se um trabalho dito normal quando por vezes se sai do país à Terça e se volta à Quinta. Não é fácil ter uma vida familiar e social estável e normal quando se está mais de duzentos dias do ano fora de casa, como já me aconteceu,” afirmou o árbitro de Leiria.

Olegário Benquerença mostrou-se ainda favorável à utilização de tecnologias no futebol. “Concordo com tudo o que traga mais verdade desportiva ao futebol,” disse.

Encerrou a sua comunicação referindo que ”não é árbitro quem quer é árbitro quem aguenta.”

Sílvia Domingos, árbitra internacional portuguesa foi outra das convidadas da conferência e explicou à plateia que “apesar de ser mulher, sempre foi respeitada neste mundo de homens. “Por incrível que pareça os jogadores, treinadores e público aceitam-me e mostram até mais respeito e educação para comigo do que com os colegas homens”, partilhou a árbitra.

“Quando entrei para a arbitragem acreditei que podia ser tão boa ou melhor que os homens e consegui atingir o estatuto de internacional,” por isso estou muito orgulhosa do meu percurso, finalizou.

João Dias, responsável pela metodologia de treino Federação Portuguesa de Futebol e da Liga de Clubes e colaborador da UEFA apresentou as suas ideias relativamente às metodologias de treino para a arbitragem, nomeadamente “a definição de planos de treino diferenciados para árbitros e árbitros assistentes, a definição de exercícios de acordo com as especificidades do trabalho do árbitro, em vez do que se fazia até há bem pouco tempo atrás, em que o treino do árbitro era limitado a corridas à volta do campo e a integração nos treinos da componente física, técnica e psicológica.”

Vítor Pereira, presidente do Conselho de Arbitragem da FPF falou sobre a relação entre o árbitro e o treinador no futebol. O dirigente da FPF explicou que cada pessoa tem o seu papel no futebol, “os jogadores são as estrelas que levam multidões aos estádios, os treinadores são os pensadores e os arquitetos do jogo e os árbitros os guardiões das leis. Se houver respeito mútuo entre todos os agentes do futebol, todos saem a ganhar,” disse.

O antigo árbitro elogiou ainda o atual momento da arbitragem portuguesa, salientando que esse sucesso é fruto de muito trabalho.

A 6.ª edição da Conferência do Desporto foi organizada pela AAUE.

 
Publicado em 17.12.2012