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“A repressão da sodomia na Época Moderna” em debate na UE
Foto: Daniel Mira
Seminário Internacional permanente sobre a Inquisição
“A repressão da sodomia na Época Moderna” em debate na Universidade de Évora

“A repressão da sodomia na Época Moderna” foi o tema em debate na Universidade de Évora, no dia 19 de novembro passado, no âmbito da 4.ª edição do Seminário Internacional permanente sobre a Inquisição.

O Seminário, organizado pelo Centro Interdisciplinar de História Culturas e Sociedades da Universidade de Évora (CIDEHUS), contou com a participação de três investigadores com investigação internacionalmente reconhecida sobre a temática: Ronaldo Vainfas, da Universidade Federal Fluminense, Ramón Sánchez González, da Universidad de Castilla-La Mancha/Toledo e Umberto Grassi, da Università di Pisa.

Ronaldo Vainfas, o primeiro orador, discutiu a questão dos fundamentos da repressão inquisitorial da sodomia, essencialmente no quadro da Inquisição portuguesa. Analisou se tal comportamento era ou não perseguido por ser considerado heresia, pois classificá-lo deste modo não era fácil. Se a bigamia atentava contra o sacramento do matrimónio e a solicitação contra o da penitência, no caso da sodomia não se colidia com nenhum destes preceitos de modo direto.

Ramón Sánchez González falou sobretudo do arcebispado de Toledo. Destacou que em Espanha só alguns tribunais alcançaram da Santa Sé poder para punir a sodomia. Usou como fontes principalmente as visitas pastorais e a as causas crimes. Nestas, a presença da sodomia era muito rara, ao invés do que acontecia com o amancebamento.

Umberto Grassi defendeu há pouco tempo o doutoramento sobre esta temática. Relembrou que em Itália numas áreas atuava a Inquisição castelhana, como era o caso da Sicília, e noutras a Romana. Este facto tinha implicações pois de algum modo, segundo o orador, a Inquisição romana era mais benevolente do que as ibéricas. Embora a sodomia já fosse perseguida antes, só a partir de 1557 a Inquisição romana obteve jurisdição sobre a mesma. Depois de Trento houve menos processos, mas penas mais severas. O autor salientou que mesmo assim havia moderação porque a sodomia tendia a ocorrer em segredo, ao passo que o concubinato era muitas vezes notório perante todos e a sociedade de Antigo Regime dava muita importância à esfera pública. Ainda realçou que muita bissexualidade era tacitamente tolerada, em especial no período anterior a Trento, sobretudo quando os que atores sociais envolvidos não subvertiam a ordem social.

O Seminário foi também interessante pela perspetiva comparada e pelo debate que suscitou.

A coordenação do Seminário esteve a cargo de Ana Isabel López-Salazar (bolseira pós-doc do CIDEHUS) e de Fernanda Olival (Departamento de História e investigadora do CIDEHUS) e constitui uma atividade do projeto “Grupos intermédios em Portugal e no Império Português: as familiaturas do Santo Ofício (c. 1570-1773)”, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/HIS-HIS/118227/2010).

Sofia Ascenso | UELINE

Publicado em 22.11.2012