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Entrevista com João E. Rabaça a propósito do projecto Careers in Nature Conservation

Entre 2015 e 2017 a Universidade de Évora esteve envolvida numa parceria estratégica financiada pelo Programa Erasmus+, com o objectivo de melhorar o processo de orientação profissional de alunos do Ensino Superior no momento de planearem uma carreira ligada à conservação ambiental e gestão da biodiversidade, contando com a participação de várias instituições húngaras (Barn Owl Foundation–líder do projecto–e Universidade Eötvös Loránd, ELTE), do Reino Unido (AMBIOS e Universidade de Exeter) e nacionais (SPEA e UÉ).

Em jeito de balanço, falámos com João E. Rabaça, director do Mestrado em Biologia da Conservação, responsável pelo LabOr-Laboratório de Ornitologia, e coordenador da equipa da Universidade de Évora.

GabCom – Qual a importância do projecto Careers in Nature Conservation no contexto europeu?

JER – Trabalhar em conservação da natureza ou participar activamente em iniciativas de sensibilização ambiental é uma paixão para muitos jovens europeus que obtêm uma formação superior nestes domínios. Todavia, para lá dos conhecimentos alcançados nas universidades, os jovens deparam-se na actualidade com a necessidade em adquirirem novas competências e, sobretudo, experiência prática. E esta questão, transversal a toda a Europa, é aliás encarada pelas entidades empregadoras como uma condição fundamental para a empregabilidade. Este foi, por assim dizer, o ponto de partida do projecto Careers in Nature Conservation, cuja génese remonta a Setembro de 2013 quando Ákos Klein (Barn Owl Foundation), Simon Roper (AMBIOS) e eu delineámos as primeiras ideias, desenvolvidas no ano seguinte com a parceria completa e concretizadas na candidatura ao Erasmus+.

GabCom – Quer dizer que os parceiros envolvidos já se conheciam?

JER – Parcialmente, sim. Já existia um conhecimento entre muitos de nós, resultante de projectos anteriores bem-sucedidos. E esse conhecimento, em minha opinião, é determinante para o lançamento de novas operações. O conhecimento que vamos adquirindo uns dos outros permite trabalhar colectivamente sobre um conjunto de ideias, de um modo mais eficiente e produtivo. E é gerador de estímulos para o futuro.

GabCom – O facto de já se conhecerem terá ajudado na elaboração de uma candidatura ganhadora, visto que o projecto foi financiado pelo Programa Erasmus+. Mas para além disso, de que modo é que o conhecimento mútuo foi importante na concretização do projecto Careers in Nature Conservation?

JER – É preciso ter em conta que no decorrer do projecto foram realizadas três mobilidades (uma em cada país) com intercâmbio de alunos e formadores entre os países parceiros. Estas mobilidades decorreram num ambiente informal e muito enriquecedor reconhecido por todos, e que só foi conseguido graças ao conhecimento mútuo entre nós. É de realçar que foram seleccionados mais de 30 alunos universitários dos três países envolvidos que participaram em acções de mobilidade combinadas (presenciais e através de video-conferência) com vista ao desenvolvimento de competências básicas e transversais, abordando tópicos como o empreendedorismo e o pensamento inovador em gestão da biodiversidade.

GabCom – Trabalhar em simultâneo com estudantes portugueses, húngaros e do Reino Unido foi um desafio?

JER – Sem dúvida. Tanto mais que o ponto de partida da formação dos alunos não era idêntico. Enquanto os nossos alunos eram estudantes do Mestrado em Biologia da Conservação e do Doutoramento em Biologia, os estudantes húngaros e ingleses cursavam, na sua maioria, 1º Ciclo de Estudos em Biologia. Esta diferenciação revelou-se muito positiva pois permitiu uma troca de experiências diversificada e ajudou a promover uma visão ampla dos problemas que se colocam aos jovens em diferentes contextos culturais.  Em síntese, o desafio transformou-se numa fantástica oportunidade para a aquisição e desenvolvimento de competências adicionais que acrescentaram valor à formação curricular dos alunos universitários.

GabCom – Em que consistiam as mobilidades realizadas pelos alunos?

JER – Cada mobilidade teve a duração de uma semana e tiveram lugar nos campus das Universidades de Exeter (RU), Szent István em Gödöllő (HU) e na Herdade da Mitra. Ao longo da semana, os estudantes aprenderam como podem construir uma atitude mental positiva, como melhor encarar as adversidades, como optimizar o trabalho em equipa, quais as tipologias de de emprego disponíveis na Europa no sector da conservação da natureza, o que significa trabalhar neste sector e o que é necessário para se ser bem-sucedido na procura de emprego. O programa incluiu ainda o desenvolvimento de competências práticas de campo, terminando com as equipas de estudantes internacionais (em cada grupo existia um aluno de cada país) a orientarem percursos para observação da fauna.

GabCom – Para si quais foram os elementos ou indicadores do projecto que mais destaca?

JER – Em primeiro lugar, o ambiente de trabalho extremamente positivo que fomos capazes de criar e que esteve na base do sucesso do projecto, reconhecido aliás por todos os estudantes que nele participaram. Depois, gostaria de referir as sessões de knowledge café que envolveram entrevistas a empregadores dos 3 países permitindo que os alunos ficassem a conhecer o seu mundo de forma muito inspiradora e profissional. Em terceiro lugar, as sessões públicas de apresentação do projecto que realizámos nas 3 universidades, e que realçaram a importância da conservação da natureza e da gestão da biodiversidade nos dias de hoje. Por último, destaco o website do projecto que permanecerá com diversos conteúdos didácticos de livre acesso destinados a estudantes e formadores.

 

GabCom – Para além do envolvimento de docentes, investigadores e estudantes da Universidade de Évora num projecto considerado estimulante, que outras vantagens encontra na participação da nossa Instituição nesta parceria?

JER – Há um aspecto que me parece importante e que resulta da experiência que adquirimos ao trabalharmos directamente com o gabinete de aconselhamento de carreiras da Universidade de Exeter, o Careers Zone. Esta universidade é uma das mais relevantes do Reino Unido e encontra-se entre as 150 primeiras a nível mundial de acordo com o Times Higher Education World University Rankings. Pois bem, o Careers Zone constitui um elo vital na ligação dos estudantes à Instituição onde se formam e tem desenvolvido um trabalho notável, aliás reconhecido internacionalmente pela atribuição em Novembro de 2017 de uma menção nos Green Gow Awards na categoria de Empregabilidade, e da medalha de bronze no Reimagine Education Award – os “Óscares” da Educação Superior –, na categoria de Criação de Empregabilidade. Embora a realidade do Ensino Superior no Reino Unido não seja a mesma que temos em Portugal, o trabalho de aconselhamento de carreiras é transversal e penso que a Universidade de Évora ganharia imenso com a criação de um Gabinete com características similares ao existente na Universidade de Exeter. Seria pioneiro na Academia Portuguesa, iria discriminar positivamente a nossa Universidade no panorama nacional e criaria um laço perene entre a Instituição e os seus alunos e ex-alunos.

 
Publicado em 23.02.2018